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Rita de Cássia Souza Tabosa Freitas é advogada e professora de Filosofia.
Rita Freitas
 
14.09
Como ser tolerante com o intolerante?

Eis um problema difícil: como aceitar a intolerância como comportamento, como aceitar que alguém diga e defenda absurdos sem entrar em um jogo de ofensas? Eis um problema que ocorre em nosso cotidiano. Imaginávamos que depois de termos exterminados judeus, ciganos, homossexuais, comunistas e toda sorte de gente tida como "descartáveis", depois de termos observados o que discursos nazifascistas foram capazes de fazer, acreditávamos que havíamos superado a fase da intolerância. Absurdamente, verificamos que estávamos errados, que ainda há muito o que superar porque estamos vivendo uma época fecunda da esse tipo de discurso.

Pena de morte, abandono de pessoas consideradas marginais, falta de preocupação com direitos trabalhistas, misoginia, é assim que o novo fascismo aparece. Ele não é mais uma ideologia nacionalista, pode até adotar um discurso liberal, mas mantém o seu viés de intolerância de falta de preocupação com a manutenção de direitos. O neofascista não discute se a reforma trabalhista vai ser um mal, desde que ele não seja afetado, não se importa com a reforma previdenciária e suas consequências, diz que o serviço público deve ser privatizado, pois o servidor é um corrupto preguiçoso, faz piada grosseira denegrindo o feminino e vomita o seu ódio a tolerância porque está tão cego de suas "verdades" que não consegue enxergar o mundo.

O neofascista escolhe as vítimas de seu ódio e as taxa com nomenclaturas que ele considera pejorativas, faz ironia como piada porque é incapaz de respeitar as diferenças e confunde diálogo com "briga", se colocando como vencedor sempre pois se blinda a escutar o que não deseja ouvir. É um indivíduo egoísta que só se preocupa com o que lhe atinge. Diz que nada presta e pede um salvador da pátria, que acabará com a democracia, pois ela propicia o aparecimento de discursos demagógicos e a corrupção. Coloca uma teoria do Estado-mínimo como ideal, mas um Estado diferente do liberal, que seria tão mínimo a ponto de violar todos os tratados de direitos humanos. Como ser tolerante com alguém que traz ideias tão perigosas como essas e que ainda consegue adeptos a causas pautadas no absurdo? Essa é uma pergunta cuja resposta não sei encontrar, pois a tolerância com o neofascista lembra uma época em que a inércia e a falta de defesa de direitos apresentou a pior de todas facetas humanas: a capacidade humana de ser produtora do mal.

 
 
 
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