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Carlos Pinheiro
 
21.04
Chiquinho da Galinha

O doido Bombinha afirmava, com muita propriedade: "Pra ser doido, em Caruaru, é preciso ter muito juízo". Caruaru foi cidade feliz com seus malucos fazendo parte da vida cotidiana de gente quase uniforme na casta social, pois os ricos eram poucos, e aqueles que tinham a propriedade de fazenda ou comércio, casa e um carro, contavam-se nos dedos das mãos e ainda sobravam dedos. Não havia arrogância nos abastados, isso passou a fazer parte do caráter milionário com o advento das separações sociais que levaram à diferenciação de pessoas pelo dinheiro, cor, religião, pela divisão partidária e pela condenação estúpida àqueles que fogem ao padrão bíblico da sexualidade.

Um dos memoráveis doidos era o Chiquinho da Galinha, alcunha que ele detestava, interrompia o que estivesse fazendo para espancar o xingador. Diziam as más línguas que o apelido nascera no flagrante sexual entre o Chiquinho e uma penosa. Alguém viu, espalhou o ato amoroso, a cidade gargalhou com a zoofilia condenável, mas aceita pelas famílias como iniciação sexual dos meninos. E o pecado voltava à estaca zero com dois Pais-nossos e cinco Ave-marias sentenciados pelo padre.

Chiquinho da Galinha carregava fretes da Feira Grande aos bangalôs em balaio à cabeça e total cuidado com os mangaios. Enquanto isso, a meninada jogava bola de meia na rua sem calçamento e, ao ver Chiquinho da Galinha, a "quadrilha" mirim se articulava para o ataque ao balaio. Dois caminhavam ao encontro de Chiquinho, proferindo o abominável apelido: "Chiquinho da Galinha! Chiquinho da Galinha!" O pobre homem perdia a paciência, largava o balaio ao chão e correia atrás dos pivetes, enquanto outros dois instigavam a mulher a correr em busca de Chiquinho, senão, quem levaria o balaio?

Agachados quais gatos do mato, outros meninos roubavam bananas, mangas, alfenins e rapadura que eram repartidos entre todos quando o bando voltava a se reunir matando a fome, e o caldo da manga escorrendo pelo braço empoeirado. Chiquinho retornava, juntava a feira sem dar conta do que faltava, colocava o balaio na rodilha e seguia seu caminho balbuciando impropérios contra a meninada.

Quando a mulher reconhecia algum menino, fuxicava a mãe dele, sem mágoa nem intriga, e o puxão de orelha era a tortura paga para aprender a não se apoderar do alheio.

Vê se pode?

 
 
 
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