Caruaru ficou órfã de memória viva, daquela memória que não é simplesmente a que lembra dos fatos e guarda as lembranças em seu âmago, mas da que expõe. Para expor a memória pode-se simplesmente falar do que passou, sem especular, sem acrescentar a sua interpretação ao fato, sem procurar compreender o que o fato sub-repticiamente esconde. Entretanto, essa memória não traz consigo a personalidade do narrador, que em suas elucubrações, sejam sensatas ou absurdas, provocam o pensar.
A memória de Caruaru ficou mais pobre porque um narrador que fazia pensar já não se encontra mais no plano dos vivos. Partiu Souza Pepeu e, com ele, uma parte importante de nossa memória. Dizem que o brasileiro não tem memória, mas se isso fosse uma verdade inconteste Pepeu não teria conseguido fazer um jornalismo do presente com tantos fatos do passado. Em sua linguagem peculiar, o jornalista fazia-se íntimo do leitor ao falar de fatos importantes em uma narrativa firme e suave, de leitura agradável.
Como editor, Pepeu publicou a poesia do nosso povo e da nossa terra, fez com que intelectuais da região, destituídos de qualquer tipo de poder social e político, pudessem expor o seu pensar. Surgiram nas páginas de sua revista as histórias da Rua do Comércio, da Rua Preta, do São João das irmãs Lira, da festa de fim de ano no Comércio, dos bailes de carnaval e tantos outros locais e festas famosos em uma Caruaru que não existe mais.
Ao ler as revistas editadas por Pepeu, com tantos colaboradores, conheço a Caruaru do meu pai e de minha mãe, uma cidade diferente do que a minha geração pode conhecer, pois era mais romântica e mais segura. Na Caruaru que conheço as pessoas correm demais. O ganhar dinheiro para suprir as novas necessidades de nossa época fica em primeiro lugar e as relações com os outros muitas vezes obedecem um critério apenas de utilidade. Há menos verdade e mais solidão nas relações pessoais.
Pepeu partiu, mas deixou-nos a mensagem de que é preciso lembrar para saber quem somos e o que estamos fazendo com as nossas vidas, com a nossa história, com o nosso entorno, enfim. |