Há 50 anos, Caruaru parava para posse de João Lyra Filho
A posse foi marcada por grandes festas durante dois dias e, apesar de não ter sido feriado local, a cidade parou para ver João Lyra Filho assumir a Prefeitura de Caruaru
Wagner Gil
Há 50 anos, no dia 16 de novembro de 1959, o empresário João Lyra Filho - eleito em 2 de agosto daquele mesmo ano - assumia a Prefeitura de Caruaru. Considerado um visionário, ele não decepcionou quando assumiu o Poder Executivo: mandou elaborar o primeiro Plano Diretor de uma cidade no Interior de Pernambuco e ainda realizou convênios com a Fundação Getúlio Vargas e o Instituto Brasileiro de Administração Municipal, ambos situados no Rio de Janeiro.
O legado mais importante deixado por João Lyra Filho foi o de grandes administradores: Anastácio Rodrigues, José Queiroz - hoje em seu terceiro mandato - e o vice-governador João Lyra Neto, grandes responsáveis pela evolução da cidade. O modelo de gestão praticamente foi seguido visando o crescimento da cidade e a diminuição das desigualdades sociais, sem deixar de pensar no futuro de Caruaru.
Para o prefeito José Queiroz, desde a posse de João Lyra Filho, o legado de grandes obras e ações só foi quebrado pelas administrações Drayton Nejaim e Tony Gel. "Quando essa sequência se partiu, a cidade amargou retrocesso de péssimas administrações. Na última, inclusive, abandonaram a cidade", relembrou Queiroz. Ele e Fernando Lyra foram ao Rio de Janeiro estudar administração pública por solicitação do então prefeito.
João Lyra Filho também foi o responsável pela entrada do ex-ministro da Justiça e ex-deputado federal Fernando Lyra na política nacional. Considerado um dos deputados mais influentes do país no Congresso Nacional durante o Golpe Militar e no processo de redemocratização, Fernando teve sete mandatos consecutivos na Câmara Federal e um na Assembleia Legislativa de Pernambuco. Ele deixou a disputa pelo voto por problemas de saúde, mas nunca abandonou a política. Hoje é presidente da Fundação Joaquim Nabuco, desde o primeiro ano de governo do presidente Lula.
CARUARU PAROU Para comemorar a posse de João Lyra Filho e de seu vice, João Elísio Florêncio, Caruaru parou por dois dias. O Jornal VANGUARDA publicava, na época, que vários eventos ocorreram na cidade de forma simultânea ou em dias alternados. O churrasco na fazenda da família em Agrestina, com a presença de dezenas de autoridades, entre elas o então governador Cid Sampaio, o escritor Jorge Amado e José Condé, deu notabilidade à posse naquele ano.
À época, os intelectuais vieram do Rio de Janeiro exclusivamente para a posse e entregaram um documento pedindo ao prefeito recém-empossado a doação de um forno, um terreno e uma casa para o Mestre Vitalino. No documento, escrito à mão, eles justificaram a importância de Vitalino não apenas para Caruaru, mas para Pernambuco e o país. João Lyra Filho não só atendeu, como construiu o Museu do Barro, derrubado anos depois por Drayton Nejaim para construir o prédio da atual prefeitura.
As comemorações não se limitaram às festas fechadas. No estádio Pedro Victor de Albuquerque - atualmente Luiz José de Lacerda - um clássico: Central x Santa Cruz. Os dois times travaram uma grande partida com os portões abertos. No Campo de Monta - hoje Parque 18 de Maio - foi realizada uma grande vaquejada e, no campo de futebol ao lado, várias partidas entre os times da terra. Na Rua da Matriz, praticamente todos os blocos carnavalescos e agremiações foram às ruas festejar, fazendo aquela data parecer um dia de Carnaval. No Clube Intermunicipal houve festa, como também em várias empresas privadas. A Ford foi uma delas.
SECRETARIADO Logo após a posse, João Lyra Filho anunciou seu secretariado, que era aguardado com muita expectativa. Todos tinham cargo de diretor: Jório Valença (Administração); Fernando Florêncio (Finanças); Anastácio Rodrigues (Educação); João Miranda (Saúde); Guilhermino Dantas (Viação e Obras Públicas) e Epaminondas Barros Correia (Agricultura).
Naquela época, a mesa diretora da Câmara foi composta por Celso Rodrigues (presidente), Jorge Tabosa (vice), Aristides Veras (1º secretário) e Honorato Leite (2º secretário). Os vereadores foram eleitos pelos seguintes partidos: Celso Rodrigues, Aluísio Lima e Rubem Lima Barros (UDN); Salvador Sobrinho, Jorge Tabosa e José Augusto Araújo (PRP); Severino Rodrigues Sobrinho, Sisenando Guilherme de Azevedo e José Rocha (PST). Ainda foram eleitos Aristides Veras e Abel Ambrósio, ambos pelo PTB, e Honorato Leite Guimarães e Edgar Bezerra Santos, pelo PSP.
NOVA FASE O atual vice-governador e secretário de Saúde, João Lyra Neto, seguiu o legado do pai e administrou a cidade por duas vezes. Ele lembrou que, na época que João Lyra Filho assumiu a prefeitura pela primeira vez, ele tinha apenas dez anos de idade. "Foi uma mudança significativa que ocorreu em Caruaru. Passamos a viver uma nova fase. Ele foi o primeiro gestor a se preocupar com a qualificação profissional na administração pública e fez convênios importantes. Alguns caruaruenses foram ao Rio de Janeiro fazer cursos. Entre eles meu irmão Fernando e o atual prefeito José Queiroz, que era funcionário da prefeitura", recordou o vice-governador.
Para João Lyra Neto, seu pai iniciou uma maneira eficiente de administração pública. "A partir daí, surgiram administrações com os mesmos padrões de avanço. Anastácio Rodrigues, o próprio Queiroz e eu por duas vezes", explicou. "Além disso ele realizou obras importantes e iniciativas que tornaram a cidade o que é hoje", completou.
SUCESSORA Ao que tudo indica, a primeira mulher da família Lyra a entrar na disputa política de forma direta será a neta de João Lyra Filho, a procuradora do Estado, Raquel Lyra. Pré-candidata do PSB a uma vaga na Assembleia Legislativa de Pernambuco, Raquel poderá se tornar a primeira mulher da família a disputar um pleito, apesar de todas elas - Márcia e Mércia, esposas de Fernando e João Lyra Neto, respectivamente - estarem envolvidas, de forma direta e indireta, na política.